terça-feira, 27 de junho de 2017

O delírio do santo

Sou Prometeu imerso no oceano abissal. “E o que é o oceano abissal?”, perguntais-me. Digo-vos que é o assoalho da alma humana, é a região remota inexplorada: o medo tornou-a inóspita e hostil. É desse abismo que o uivo dos lobos e o grunhir dos porcos é ouvido; é nesse abismo que rasteja a víbora; é nesse abismo que descansa a morte; é nesse abismo que a peçonha do escorpião é destilada; é nesse abismo que sangra a lua; é nesse abismo que a flor fulva prospera! É no abismo mais profundo do oceano da alma que paira o lamento da lira. Determino-vos: contemplei vossas profundezas! Deixai que minha chama arda no oceano abissal e traga luz a cada tímido e obscuro animal que insiste em rastejar por entre as frestas da vergonha! No entanto, não admitais que a aurora da benevolência perpetue em vosso abismo – de outro modo acabaríeis cegando as criaturas do submundo. Acima de tudo: amai tudo o que é escuro e negro, tudo o que é fétido e putrefato! Desprezai somente uma coisa: a fraqueza e o ressentimento. Há beleza em tudo o que permeia a vida, exceto nas forças que se afiguram como antítese do que é vivo. Ora, não falo da morte: amai também a morte! Ó homens que buscam além do que é fútil e que não mais se entretêm com as imbecilidades dos cordeiros vingativos: amai mesmo vossa face diabólica – e principalmente ela! Porquanto não há mais um Deus e um Diabo; estes sucumbiram há muito e de suas cinzas elevou-se Abraxas!
Não sou afeito à flecha que trespassa a alma em um só golpe; sinto mesmo desprezo por aquilo que causa, por meio da estética, o êxtase imediato. Este afigura-se como um sentimento religioso, como a visão de um santo – coisa que não é mais para este século. Somos homens da ciência, e o que se descortina de uma vez só como um espetáculo amador deve ser por nós repudiado: nada menos. Como um palhaço que entra em cena, a flecha impetuosa colore nossa face de riso; pensamos então: como é deliciosa a vida! Perdoais-me a analogia deveras inadequada; posso atingir vossos corações com o que é santificado, quiçá? Pois ouso dizer-vos que o mais santo dos santos é também o mais palhaço: faz-me rir com sua vaidade – a propósito, tão colorida quanto à face dos artistas de circo. O santo – e não só o santo – que é atingido pela flecha uivante pensa que viu Deus: de fato foi apenas envenenado. Este é o caráter da beleza imediatamente extasiante: tóxica!
Ah, mas não penseis que me privo de toda beleza! Amo não a flecha que uiva como os lobos das estepes, mas a flecha que, vagarosa, pouco a pouco perfura a alma. O santo não a conhece, porquanto vive das fantasias que assaltam-no de quando em quando; e quanto ele sofre quando não corre em suas veias o delírio! O homem afeito pela flecha lenta, ao contrário, é repleto de disciplina e vibra enquanto caminha ao seu destino. Sua trajetória: essa sim é amada como flecha impetuosa. No caminho do espírito livre nada há que não possa ser transpassado por sua vontade. E, enquanto a flecha de sua alma é lançada implacavelmente ao alvo, a flecha da beleza lenta perfura, aos poucos e hesitante, seu coração. A grande alegria gozada após tantos caminhos percorridos derrama-se paulatinamente sobre as frestas de seu cérebro. Quando se dá conta, tantas montanhas foram sobrepujadas que o homem livre regozija-se de sua força e persistência; não como o santo, que, como um cão guloso, satisfaz-se com restos moribundos - não há como exigir dele outra coisa -, mas como um homem nobre que se delicia com um banquete sem se lançar desesperadamente ao alimento. O banquete é duradouro; os restos, efêmeros. O líquido reluzente que penetra as fendas do homem livre é diferente do chorume que enche a barriga do santo. 
“Mas não nos incitastes, Prometeu, a amar tudo o que é negro e pútrido? Por que, então, não amar o líquido viscoso na barriga do santo sempre faminto?” Ó homens sensatos, em verdade há muita prudência em vossas palavras inquiridoras; mas não vos esqueçais de que há de se amar o que é podre no oceano abissal porque seu estado putrefato só existe por falta de luz; isto é, por falta de conhecimento! O santo e o que há nas vísceras do santo, por outro lado, deve ser desprezado. O que o homem comum faz é o contrário: ama o santo e bebe de bom grado sua bile, mas despreza o que foi renegado em seu próprio coração. Por isso ofereço-vos minha chama: a da razão, não a da benevolência. Iluminai o assoalho de vossas almas para que o que é moribundo passe a irradiar vontade; mas não cegueis as bestas com vossa moral! Lembrai-vos disso: a verdade purifica; a compaixão cega.  Por isso, tornai puro o que é ignominioso, mas espantai a aurora que insiste em queimar as criaturas das sombras.


E quem possui um pouco de santo dentro de si deve lançar-se no abismo de sua alma! 

segunda-feira, 29 de maio de 2017

Prometeu Acorrentado

Covarde! Tu és, mil vezes, covarde! Já não basta a ti grunhir como os porcos e ladrar como os cães: tu anseias ser porco e também cão! Tu te enches de uma coragem falha e tímida que só serve para metamorfosear-se em coisa insignificante na hora de pôr-se em prova. Mesmo os porcos têm vergonha de teu grunhido aberrante, e mesmo os cães silenciam-se diante de teu ladrar a fim de discernir a boca que lança sons tão abomináveis. Tu, ó criatura deformada, rasteja não por ser serpente, senão porque teus membros já não dispõem de serventia alguma. Avalias que minhas palavras são duras? Pois digo-te que a verdade faz doer muito mais que a ave que devora tuas vísceras!
Ó Prometeu Acorrentado! Amo-te como o céu ama o mar, mas teu amor por grilhões impede-me que te socorra de teu pungente lamento! És de tal forma afeiçoado às correntes que não hesita em entregar de bom grado o fígado à tua desgraçada águia. Até mesmo confundo-me quanto aos gritos vindos do alto do Cáucaso, porquanto não posso identifica-los como motivados por dores ou prazeres. Digo-te, ó Amigo dos Homens: amaldiçoa Zeus e também Hefesto! Deixa de lado tua covardia e berra a plenos pulmões a mais variada sorte de injúrias aos teus malfeitores, àquele que te condenou ao sofrimento diário e àquele que forjou tuas cadeias! Cuspa tua saliva rançosa na face daqueles que são mais insetos que deuses!
Tu deixaste que te vazassem os olhos e entregaste de boa vontade tua língua aos lobos. Agora já não vês e não falas: tornaste-te um cordeiro à mercê dos teus açoitadores. Tua maldição paira sobre teu semblante esperando que estejas novamente inteiro – assim é que tua ave aguarda pacientemente a valorosa refeição. Ponho-me a gargalhar nervosamente quando vislumbro tua figura desnutrida: tua boca espuma pelos cantos e tu me espias languida e estupidamente como se em teu crânio teus miolos já houvessem sido moídos. Ai! Esperanço-me que tenha restado em ti uma fagulha de lucidez para que não te prontificasses a furar teu precioso tímpano! Se assim tiver sido, imploro-te: ouça-me, ó Ladrão das Chamas!
Ainda há tempo para que te libertes de tua maldita sina! Se pensas que tua ominosa águia é já tua única fonte de sensações, estás plenamente enganado. Deixa de imaginar que tua dor pungente é prazer e abrace o prazer verdadeiro! Prometeu, aguça-te bem os ouvidos: posso trazer a cura para teus membros inválidos, teus olhos vazados e tua língua extirpada! Tu podes ser grande como um dia foste; basta que deixes de lado afeição tão profunda pelas cadeias. O que? Tens compaixão da águia que se alimenta todos os dias da tua vida e que morrerá de fome caso tu te decidas pela libertação? Ó criatura estúpida: amaldiçoa tua desgraça! Deixa de amar aqueles que só te trazem moléstia!
A compaixão é o pior fardo que homens e deuses podem prostrar sobre os ombros. O que pensas que és? Um camelo, quiçá? Pois digo-te: deves tornar-te um leão! Deixa de sonhar que estás no deserto e que teu único consolo é encontrar uma alma que ponha sobre tuas corcovas os pesos mais abomináveis; livra-te do que mantem teus pés firmes sobre a areia quente! Entrega-te à dolorosa leveza! Aniquila o dragão em cujas escamas reluz o dito: “Tu deves.” Tu, ó Prometeu, Amante da Razão, já voltou teus ouvidos às palavras de Zaratustra? Sê capaz de dizer o tão sagrado Não; torna-te criança e diz o tão criador Sim!
Fora, ó abutres sedentos por cadáveres imundos! Deixai que o que está acorrentado liberte-se das correntes: assim vos ordeno. Lançai mão de vossa carência por tudo o que é ignominioso e atirai-vos ao abismo profundo de vossas almas! Não importuneis o Amante dos Grilhões, porquanto seu amor está prestes a diluir-se em minhas palavras: tornar-se-á, enfim, livre! Apresento-vos a preciosa luz que espantar-vos-á; refiro-me a ela como egoísmo. Prometeu, deixa de exalar compaixão para que estes vultos que pairam sobre ti enfim mergulhem sob a terra carcomida por vermes! Acorda, ó Prometeu Acorrentado, e liberta-te de tuas cadeias!


Que tipo de sonho sonhaste durante teu sono profundo?

domingo, 10 de abril de 2016

A lira

Não suportava mais o medo da queda: temor que estendia-se desde os primórdios de sua existência. A força esmagadora com a qual era tragado para as profundezas de seus próprios abismos o fazia aiar em pungente e doloroso sofrimento; no entanto, voejava sobre o cume mais alto de sua alma. Sim, era dotado de asas, as quais lhe foram dadas pelas artes. Quão belas poderiam ser as obras criadas por uma mente humana? Poderiam estas salvar-lhe de seu desespero existencial? Ao menos mantinham-lhe pairando sobre seus infernos, impedindo que estes o consumissem em chamas.
Encontrava-se moribundo e desmazelado em uma cela ignominiosa e soturna.  Era-lhe difícil e laboriosa a tentativa de trazer à tona a memória; não obstante, lembrava-se vagamente de um certo alguém vestido em um traje negro de colarinhos escarlates. Dizia-lhe, enquanto prostrava-se complacente no mesmo chão no qual descobrira-se há instantes:
- O passado, ao contrário do que pensas, não é imutável. Nós o construímos e o destruímos frequentemente e à vontade. Nada é tão verdadeiro que não possa se converter em mentira; nada é tão duvidoso que não possa se tornar certeza. O mundo, há muito tempo, não é mais sólido: vivemos tempos de liquidez. Duvide de teus olhos e teus ouvidos; duvide de tua consciência; duvide de teus medos e teus anseios. Confie em nós: a salvação reside na entrega.
Fora interrompida sua lembrança por ruídos metálicos e sons de passos pesados. Em seu cárcere reinava a escuridão completa, exceto pela meia-luz que o penetrava de uma pequena abertura retangular. Uma silhueta humanoide estancou-se por um momento em frente às grades que os separavam para logo após lançar displicentemente um pedaço de pão velho e rijo. Alimentou-se condescendente e apaticamente, bebeu da água enlameada que gotejava da torneira de sua jaula e deitou-se na superfície fria e úmida.
Era-lhe possível ouvir murmúrios distantes, lamentos e suspiros infames. Ao ouvir gritos lamuriosos e longínquos, crescia em si gigantesca indignação. “Por que me encontro aqui, como também se encontram estas pessoas sofridas da alma e do corpo?”, perguntava-se. Como era de se esperar em um mundo hostil e solitário, nenhuma resposta chegou ao seu espírito. 
Não obstante, pôde paulatina e quase imperceptivelmente sobrepor à lamúria uma música que lhe era conhecida. O plangor longínquo, não sabia se horrorosa ou belissimamente, lembrava-lhe os sons dos violinos de Sibelius, e estes, agora, lhe diziam tudo a respeito de cada boca em clamor.
Seu cárcere, então, dissolveu-se, e à sua volta pôde observar um mundo dourado e vermelho: uma floresta em um dia de outono. Pôde sentir o oboé misturar-se ao canto dos pássaros e o violoncelo pairar sobre a brisa gentil e acolhedora. Estava em paz, envolvido pela necessária solidão. Naquele instante tudo lhe era aprazível, e as chamas que ardiam em seu peito haviam cessado. A beleza estagnante e magnífica dava asas à sua alma.
No entanto, do belo fez-se o horror quando a música fora estraçalhada por um grito pungente e longínquo. O vermelho suave das folhas transformara-se em vermelho escarlate de consistência liquida e o dourado tornara-se meia luz a fraquejar em um corredor escuro. Via que o vermelho escorria de suas mãos e que havia um corpo desmantelado aos seus pés, com as entranhas prostradas a certa distância e o rosto desfigurado por apunhaladas profundas e impetuosas. O cadáver: sua mulher. Fora invadido inicialmente por um onda violenta de horror; no entanto, logo após as primeiras impressões, fez-se em sua face um sorriso de prazer ao perceber que havia concretizado a fantasia que nutria havia muitas primaveras.


Encontrava-se novamente em sua deplorável jaula, mas sentiu-se em paz ao saber que os murmúrios longínquos eram, na verdade, lamúrias de sua própria alma. A música pairava sobre seus lamentos. 

domingo, 6 de dezembro de 2015

Pequena carta de Prometeu a Sól.

Mulher das estrelas,
Escrevo-te de forma cálida enquanto flutuas no teu lugar de direito: terra dos ídolos, dos heróis e dos amantes. Pairas no firmamento, ó Rainha das Cores, bela e sedutora. Ainda que sonhes, teus sonhos difundem sobre a Terra a mais terna esperança; ainda que chores, tuas lágrimas sublimam o coração mais sórdido. Escrevo-te desta região remota cheio de aguardo e saudades. Mesmo longínqua, és o que de mais precioso tenho. Tenho-te sem possuir-te; amo-te sem acorrentar-te.
Ó minha amada, a mim é possível suportar a dor à qual sou infligido todos os dias pois tu sempre te descortinas no horizonte. Se assim não fosse, tal tortura teria corroído minha alma imortal há muitos milênios. Sou castigado por amar a humanidade em demasia como tu; no entanto, deste vida, antes dos homens, aos deuses, e portanto estes devem a ti reverência. Muito diferente do que pensa o Imperador dos Céus, sua punição não me traz desespero ou angústia: em meu rosto estampa-se um grande sorriso, porquanto teu brilho traz-me a mais imensa alegria mesmo frente à maior das aflições.  
Sinto tua falta, pois é noite e estás distante: teus beijos são apenas lembranças. O tecido que cobria teu deslumbrante corpo caía por terra enquanto beijávamo-nos fascinados um pelo outro; tua rosa desabrochava-se a mim e meus lábios percorriam toda tua pele. Deliciava-me em teus seios e ansiava por tua flor cálida e luzidia com todo meu ser. Tornávamo-nos um: nada mais havia no mundo além de nós. Prostrávamos cansados e abatidos por fim, ambos vencedores e derrotados.
Tu, ó fogo dos céus, fazes das nuvens tua carruagem. Vens de encontro a mim, a quem te ama. Espero-te impacientemente e anseio por tua presença mais do que ambiciono minha liberdade. A mim era hábito amaldiçoar o Olimpo; não mais: a alvorada é iminente. Há quem diga que isto denota um dia a mais de flagelo: discordo. Ainda que a águia estraçalhe meu fígado mais uma vez; ainda que as dores mais cruéis pesem sobre meus ombros; ainda que meu sangue tinja o solo de escarlate; ainda que as correntes tesas vistam a liberdade como a mais perfeita utopia, prontamente avistarei a ti e minha vida resplandecerá novamente.

Pois há mais poesia no encontro que na espera.   
Com amor,
Prometeu

sábado, 28 de novembro de 2015

Monotonia

O medo do fracasso é a estagnação. Torna-nos morosos e lânguidos: pobres coitados à mercê de Deus. A piedade miserável que temos para conosco representa o sentimento mais ignominioso que existe entre nós, seres humanos. Amantes da podridão, somos animais complacentes com a própria alma pútrida e abatida. No final do dia, prostramo-nos cansados e esperamos que alguém acaricie-nos os cabelos com ternura e diga:
-Esforçaste-te com todo teu ser. Estás livre para deitar-te de consciência tranquila, porquanto deste de ti o melhor.
Impõem-nos desejos e vontades, enchem-nos de promessas e nos fazem desejar o amor de todo o mundo e a resplandecência característica daqueles que vivem no topo. Mimam-nos com seus carros sumptuosos, com suas mansões ingentes e com a glória da televisão. Vestem-nos com todos os sonhos burgueses, vendem-nos a felicidade por outdoors e nos induzem a acreditar que um dia, credores por nosso suado esforço, transgrediremos a linha que separa a utopia da existência. Posteriormente, surram-nos a face com a realidade e nos ridicularizam com a ignomínia do fracasso, para logo em seguida nos encherem de terna esperança por meio de livros de autoajuda.   
E acreditamos, sempre fiamo-nos na ideia de que demos nosso melhor quando, em verdade, oferecemos migalhas. Somos crianças à espera de que algo ou alguém intervenha por nós, porquanto, sozinhos, o medo de fracassar nos faz pusilânimes.
-Ele interverá, minha criança. Dar-te-á tudo o que tanto deseja e há de tornar-te alguém.
Deus: a mais brilhante criação da burguesia. Por seu intermédio, a sociedade aterroriza e castra a todos. Não somos mais que cobaias acovardadas pelo céu e o inferno. Divinizamos a moral e demonizamos a imoralidade. Cremos fielmente no bem e no mal, no certo e no errado, na conquista e no fracasso. Não temos audácia para lutar sozinhos pelo que deveras ambicionamos e nos prostramos derrotados por aspirações fúteis e frustradas que não são nossas. O que desejaste para ti?
Dissipamos o dia em antros de imbecilidade, entusiasmados com fotos de coelhinhos, gatinhos e ursinhos. Não existe o mero resquício de agressividade, qualidade primordial e inescusável para enfrentar o mundo e abocar aspirações. Não, somos criaturas oprimidas e aviltadas, distraídas com o que é aprazível aos olhos. Mendigamos aprovação e admiração: disto nossa frágil confiança depende.
Rastejamo-nos como vermes. Somos inundados por desejos alheios e manipulados por mentiras asquerosas: o livre arbítrio é a pior delas. Perdemos o laço com a natureza selvagem, porquanto passamos a acreditar em sua benevolência e misericórdia. Somos criaturas castradas, abatidas e solitárias. Distraímo-nos com o que é terno e cativa, com o que nos prometem nos anúncios de televisão, com vitrines repletas de vislumbres. Desviam-nos o olhar enquanto somos violentados. Exsudamos de medo, tememos não fazer jus às expectativas que pesam drasticamente sobre nós. Não abocanhamos vigorosamente as ambições que são verdadeiramente nossas, mas mendigamos e choramos por desejos fúteis que nos venderam, que nos disseram render glória e prestígio. Receamos não ser alguém. E assim, cingimo-nos de eterna monotonia.  

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

A morte, a flor e a víbora

A noite era sombria e soturna. O silêncio denotava fuga: todos haviam escapado para dentro de si. Em posição fetal, mendicantes se satisfaziam com restos burgueses e, de quando em quando, eram surrados por meninos que voltavam tarde para seus pais, pessoas de bem. Havia lá fora, algures, veneno que a ninguém aprazia tragar. A cada esquina vislumbrava-se a flor amarela, e por trás dela espreitava o diabo.
Abancou-se em sua poltrona usual posicionada em frente à lareira. Não havia nada o que pensar; nunca havia. Entretanto, raros eram os momentos vazios. Repudiava instantes vagos. À vista disso, preenchia-os com o que havia de mais substancial em sua vida: pensamentos tão incorpóreos quanto o ar e fantasias tão efêmeras quanto sonhos de Vishnu. Tudo o mais convergia àquela existência detestável: o vazio.
Por trás do crepitar das chamas fazia-se audível a combustão de sua alma: ardia violentamente seu espírito, ainda que seu semblante permanecesse impassível. Seus olhos vidrados, cravados em seu coração, não se moviam um milímetro sequer. Como quem remexe um cadáver pútrido à procura da vida, cavava o próprio passado em busca da luz.
Trepava a árvore de sua mente uma serpente negra. Sombria e mefítica, espreitava o pássaro que havia pousado na ponta de um dos braços. Deslizava lúbrica e pacientemente contra a gravidade. Não havia angústia ou inquietação em seus movimentos: a serpente era dona do tempo. Preparava-se para o bote. O vislumbre, a determinação, o golpe e o sangue. Silêncio.  
Ergueu-se de seu assento e dirigiu-se vacilante e morosamente à ventana. De lá era possível contemplar grande parte da rua em que residia. Testemunhava um grupo de ébrios burgueses: homens e mulheres regressando de uma festa de gala qualquer. Não lhe era possível distinguir uma palavra do que diziam, mas as vozes graves misturadas às agudas e médias logravam seus ouvidos e lhe evocavam a cena de moscas famintas ao redor de cadáveres putrefatos. Contemplava, ademais, cães e indigentes vasculhando as mesmas latas de lixo à procura de alguma substância. Todos inalavam aflita e sofregamente o pólen da flor fulva.
Do mesmo modo, havia já tragado o veneno dourado do medo. Assim, era aterrorizado pelo que se descortinava cada vez mais próximo: o vazio. Havia em seus olhos trêmulos o pavor da morte e de depois da morte. Existência detestável a sua, preenchida por nuvens flavas e abismos ecoantes. Mais uma vez a víbora sombria serpenteava pelos vãos de seu crânio.
Não suportava contemplar o mundo. Ludibriava-se ao admirar o canto de um pássaro ou as cores do céu. Tudo era miragem e quimera: não havia amor ou beldade. Havia dor e desespero. A mácula humana residia em seu coração: terra úbere da qual brotava a flor do medo. Não lhe era possível suster a visão das ruas ou do firmamento, porquanto o homem e a natureza esmigalhavam-no. Assim, construíra um muro ingente ao seu redor.
Há anos não o cruzava. Tijolo por tijolo, desde sua infância empenhava-se a finda-lo. Devia aferrolhar-se dentro de si para não padecer das monstruosidades do mundo: seus pais lhe haviam já evidenciado. Do lado de fora não havia mais do que abutres aflitos à procura da morte, cães sedentos e seus ladros hostis, porcos imundos nutrindo-se da escória humana; havia medo, e do medo nascia o ódio.  Havia a flor, e da flor nascia a víbora.

Memento mori. O vazio é a substância da vida. 

domingo, 22 de novembro de 2015

A lua e o escorpião

A lua sangra. Vermelha e hostil como a Terra em tempos primórdios. Chora lancinantemente e busca em sua dor um conforto inatingível. Longínquo prostra-se seu criador que, cansado e abatido, renúncia à criação.
Diana desperta. De seus olhos correm lágrimas escarlates que deslizam vagarosamente por seu rosto alvo para finalmente atingirem o chão batido. A alvorada é anunciada melancolicamente por um distinto pássaro negro que pousa em seus ombros enquanto Diana vislumbra os primeiros raios do altivo rei, lançados por entre as copas das árvores. A manhã é triste, solitária e pungente. De seus seios cobertos por trapos eivados caminha um escorpião em direção à sua boca semiaberta, que cerra-se logo após a entrada do intruso. Sorri. O pequeno animal, que encontra abrigo em sua língua macia, úmida e escura, sensualmente infunde seu veneno no céu da boca de sua amante. Diana vocifera de prazer e seu brado silencia toda vida existente ao redor de sua casa de pau a pique.
Havia transcendido, há muito tempo, a linha tênue que separa a dor do deleite; para ela não existia dessemelhança. Sabia apreciar a mais atroz tortura e a mais desmedida paixão; podia deliciar-se em melancolia ao contemplar o canto de um pássaro e reconhecer a música no estertor de um enfermo à beira da morte. Em oposição à maioria dos seres sobre a Terra, sabia apreciar ambas as sensações, em razão de serem uma só.
Cada dia de sua vida era único e primeiro: se desfazia assim que Diana cerrava seus olhos para adormecer. Não lembrava-se de como havia chegado àquela casa, não tinha pistas acerca do que havia sucedido na noite passada e em sua mente não havia o menor vestígio de sua infância. Contudo, pensava, qual a relevância de tais memórias? Era, destarte, uma mulher privilegiada, porquanto conhecia o mistério dos seres sobre a Terra. Não conservava memória alguma de seu passado, assim sabia exatamente quem era.
Os sons e tons de vida ao redor de sua casa voltam a fazer-se presentes. É quase meio dia; a manhã triste e solitária fica para trás. Agora Diana não mais sangra pelos olhos: esboça o mesmo sorriso suscitado ao perceber que abrigava em sua boca, horas atrás, criatura tão delicada e peçonhenta. Dirige-se ao bosque para realizar o desjejum tardio.
O sol, no auge de seu reinar, aquece todos os seres e intensamente provê a energia motora da vida. O mesmo pássaro que viera anunciar-lhe a alvorada pousa agora, suavemente, no galho de uma macieira. Diana nota, neste momento, que lhe faltam os olhos: o motivo de seu canto demasiado triste. Faminta, corre a vista pelas frutas que pendiam da árvore. Uma maçã sui generis lhe chama a atenção: escarlate, luzidia, sumptuosa, íntegra e impecável. Pode ouvir-lhe o pulsante convite. O desejo emana, de ambas as partes, como o calor emana do fogo: tanto quanto ela, o fruto ardente deseja ser degustado.
E assim se faz. Seus lábios vermelhos lúbricos confundem-se com o vermelho escarlate do fruto enquanto seus dentes enterram-se libidinosamente na carne macia e pulsante. Seu corpo estremece. Um arrepio lhe percorre a espinha em direção ao cume de seu espírito e prostra-se como um animal cansado. Lembra-se. Do que? Do presente: o criador abomina e rejeita a própria criação. Deus está morto; o diabo, lascivo. Lânguida concepção, inventividade mórbida. Nenhum ser sobre a Terra está a salvo da própria selvageria.

A lua ainda sangra; o escorpião ainda vive.