A lua sangra. Vermelha
e hostil como a Terra em tempos primórdios. Chora lancinantemente e busca em
sua dor um conforto inatingível. Longínquo prostra-se seu criador que, cansado
e abatido, renúncia à criação.
Diana desperta. De seus
olhos correm lágrimas escarlates que deslizam vagarosamente por seu rosto alvo
para finalmente atingirem o chão batido. A alvorada é anunciada melancolicamente
por um distinto pássaro negro que pousa em seus ombros enquanto Diana vislumbra
os primeiros raios do altivo rei, lançados por entre as copas das árvores. A
manhã é triste, solitária e pungente. De seus seios cobertos por trapos eivados
caminha um escorpião em direção à sua boca semiaberta, que cerra-se logo após a
entrada do intruso. Sorri. O pequeno animal, que encontra abrigo em sua língua
macia, úmida e escura, sensualmente infunde seu veneno no céu da boca de sua
amante. Diana vocifera de prazer e seu brado silencia toda vida existente ao
redor de sua casa de pau a pique.
Havia transcendido, há
muito tempo, a linha tênue que separa a dor do deleite; para ela não existia
dessemelhança. Sabia apreciar a mais atroz tortura e a mais desmedida paixão; podia
deliciar-se em melancolia ao contemplar o canto de um pássaro e reconhecer a
música no estertor de um enfermo à beira da morte. Em oposição à maioria dos
seres sobre a Terra, sabia apreciar ambas as sensações, em razão de serem uma só.
Cada dia de sua vida
era único e primeiro: se desfazia assim que Diana cerrava seus olhos para
adormecer. Não lembrava-se de como havia chegado àquela casa, não tinha pistas
acerca do que havia sucedido na noite passada e em sua mente não havia o menor
vestígio de sua infância. Contudo, pensava, qual a relevância de tais memórias?
Era, destarte, uma mulher privilegiada, porquanto conhecia o mistério dos seres
sobre a Terra. Não conservava memória alguma de seu passado, assim sabia
exatamente quem era.
Os sons e tons de vida
ao redor de sua casa voltam a fazer-se presentes. É quase meio dia; a manhã triste
e solitária fica para trás. Agora Diana não mais sangra pelos olhos: esboça o mesmo
sorriso suscitado ao perceber que abrigava em sua boca, horas atrás, criatura
tão delicada e peçonhenta. Dirige-se ao bosque para realizar o desjejum tardio.
O sol, no auge de seu
reinar, aquece todos os seres e intensamente provê a energia motora da vida. O
mesmo pássaro que viera anunciar-lhe a alvorada pousa agora, suavemente, no
galho de uma macieira. Diana nota, neste momento, que lhe faltam os olhos: o
motivo de seu canto demasiado triste. Faminta, corre a vista pelas frutas que
pendiam da árvore. Uma maçã sui generis lhe chama a atenção: escarlate,
luzidia, sumptuosa, íntegra e impecável. Pode ouvir-lhe o pulsante convite. O
desejo emana, de ambas as partes, como o calor emana do fogo: tanto quanto ela,
o fruto ardente deseja ser degustado.
E assim se faz. Seus
lábios vermelhos lúbricos confundem-se com o vermelho escarlate do fruto
enquanto seus dentes enterram-se libidinosamente na carne macia e pulsante. Seu
corpo estremece. Um arrepio lhe percorre a espinha em direção ao cume de seu
espírito e prostra-se como um animal cansado. Lembra-se. Do que? Do presente: o
criador abomina e rejeita a própria criação. Deus está morto; o diabo, lascivo.
Lânguida concepção, inventividade mórbida. Nenhum ser sobre a Terra está a
salvo da própria selvageria.
A lua ainda sangra; o
escorpião ainda vive.
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