domingo, 22 de novembro de 2015

A lua e o escorpião

A lua sangra. Vermelha e hostil como a Terra em tempos primórdios. Chora lancinantemente e busca em sua dor um conforto inatingível. Longínquo prostra-se seu criador que, cansado e abatido, renúncia à criação.
Diana desperta. De seus olhos correm lágrimas escarlates que deslizam vagarosamente por seu rosto alvo para finalmente atingirem o chão batido. A alvorada é anunciada melancolicamente por um distinto pássaro negro que pousa em seus ombros enquanto Diana vislumbra os primeiros raios do altivo rei, lançados por entre as copas das árvores. A manhã é triste, solitária e pungente. De seus seios cobertos por trapos eivados caminha um escorpião em direção à sua boca semiaberta, que cerra-se logo após a entrada do intruso. Sorri. O pequeno animal, que encontra abrigo em sua língua macia, úmida e escura, sensualmente infunde seu veneno no céu da boca de sua amante. Diana vocifera de prazer e seu brado silencia toda vida existente ao redor de sua casa de pau a pique.
Havia transcendido, há muito tempo, a linha tênue que separa a dor do deleite; para ela não existia dessemelhança. Sabia apreciar a mais atroz tortura e a mais desmedida paixão; podia deliciar-se em melancolia ao contemplar o canto de um pássaro e reconhecer a música no estertor de um enfermo à beira da morte. Em oposição à maioria dos seres sobre a Terra, sabia apreciar ambas as sensações, em razão de serem uma só.
Cada dia de sua vida era único e primeiro: se desfazia assim que Diana cerrava seus olhos para adormecer. Não lembrava-se de como havia chegado àquela casa, não tinha pistas acerca do que havia sucedido na noite passada e em sua mente não havia o menor vestígio de sua infância. Contudo, pensava, qual a relevância de tais memórias? Era, destarte, uma mulher privilegiada, porquanto conhecia o mistério dos seres sobre a Terra. Não conservava memória alguma de seu passado, assim sabia exatamente quem era.
Os sons e tons de vida ao redor de sua casa voltam a fazer-se presentes. É quase meio dia; a manhã triste e solitária fica para trás. Agora Diana não mais sangra pelos olhos: esboça o mesmo sorriso suscitado ao perceber que abrigava em sua boca, horas atrás, criatura tão delicada e peçonhenta. Dirige-se ao bosque para realizar o desjejum tardio.
O sol, no auge de seu reinar, aquece todos os seres e intensamente provê a energia motora da vida. O mesmo pássaro que viera anunciar-lhe a alvorada pousa agora, suavemente, no galho de uma macieira. Diana nota, neste momento, que lhe faltam os olhos: o motivo de seu canto demasiado triste. Faminta, corre a vista pelas frutas que pendiam da árvore. Uma maçã sui generis lhe chama a atenção: escarlate, luzidia, sumptuosa, íntegra e impecável. Pode ouvir-lhe o pulsante convite. O desejo emana, de ambas as partes, como o calor emana do fogo: tanto quanto ela, o fruto ardente deseja ser degustado.
E assim se faz. Seus lábios vermelhos lúbricos confundem-se com o vermelho escarlate do fruto enquanto seus dentes enterram-se libidinosamente na carne macia e pulsante. Seu corpo estremece. Um arrepio lhe percorre a espinha em direção ao cume de seu espírito e prostra-se como um animal cansado. Lembra-se. Do que? Do presente: o criador abomina e rejeita a própria criação. Deus está morto; o diabo, lascivo. Lânguida concepção, inventividade mórbida. Nenhum ser sobre a Terra está a salvo da própria selvageria.

A lua ainda sangra; o escorpião ainda vive. 

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