A noite era
sombria e soturna. O silêncio denotava fuga: todos haviam escapado para dentro
de si. Em posição fetal, mendicantes se satisfaziam com restos burgueses e, de
quando em quando, eram surrados por meninos que voltavam tarde para seus pais, pessoas
de bem. Havia lá fora, algures, veneno que a ninguém aprazia tragar. A cada
esquina vislumbrava-se a flor amarela, e por trás dela espreitava o diabo.
Abancou-se em
sua poltrona usual posicionada em frente à lareira. Não havia nada o que
pensar; nunca havia. Entretanto, raros eram os momentos vazios. Repudiava
instantes vagos. À vista disso, preenchia-os com o que havia de mais
substancial em sua vida: pensamentos tão incorpóreos quanto o ar e fantasias
tão efêmeras quanto sonhos de Vishnu. Tudo o mais convergia àquela existência
detestável: o vazio.
Por trás do
crepitar das chamas fazia-se audível a combustão de sua alma: ardia
violentamente seu espírito, ainda que seu semblante permanecesse impassível.
Seus olhos vidrados, cravados em seu coração, não se moviam um milímetro sequer.
Como quem remexe um cadáver pútrido à procura da vida, cavava o próprio passado
em busca da luz.
Trepava a árvore
de sua mente uma serpente negra. Sombria e mefítica, espreitava o pássaro que
havia pousado na ponta de um dos braços. Deslizava lúbrica e pacientemente
contra a gravidade. Não havia angústia ou inquietação em seus movimentos: a
serpente era dona do tempo. Preparava-se para o bote. O vislumbre, a
determinação, o golpe e o sangue. Silêncio.
Ergueu-se de seu
assento e dirigiu-se vacilante e morosamente à ventana. De lá era possível
contemplar grande parte da rua em que residia. Testemunhava um grupo de ébrios
burgueses: homens e mulheres regressando de uma festa de gala qualquer. Não lhe
era possível distinguir uma palavra do que diziam, mas as vozes graves
misturadas às agudas e médias logravam seus ouvidos e lhe evocavam a cena de
moscas famintas ao redor de cadáveres putrefatos. Contemplava, ademais, cães e
indigentes vasculhando as mesmas latas de lixo à procura de alguma substância. Todos
inalavam aflita e sofregamente o pólen da flor fulva.
Do mesmo modo, havia
já tragado o veneno dourado do medo. Assim, era aterrorizado pelo que se descortinava cada vez mais próximo: o vazio. Havia em seus olhos trêmulos o pavor da morte e
de depois da morte. Existência detestável a sua, preenchida por nuvens flavas e
abismos ecoantes. Mais uma vez a víbora sombria serpenteava pelos vãos de seu
crânio.
Não suportava
contemplar o mundo. Ludibriava-se ao admirar o canto de um pássaro ou as cores
do céu. Tudo era miragem e quimera: não havia amor ou beldade. Havia dor e
desespero. A mácula humana residia em seu coração: terra úbere da qual brotava
a flor do medo. Não lhe era possível suster a visão das ruas ou do firmamento,
porquanto o homem e a natureza esmigalhavam-no. Assim, construíra um muro
ingente ao seu redor.
Há anos não o
cruzava. Tijolo por tijolo, desde sua infância empenhava-se a finda-lo. Devia
aferrolhar-se dentro de si para não padecer das monstruosidades do mundo: seus pais lhe haviam já evidenciado. Do lado de fora não havia mais do que abutres
aflitos à procura da morte, cães sedentos e seus ladros hostis, porcos imundos
nutrindo-se da escória humana; havia medo, e do medo nascia o ódio. Havia a flor, e da flor nascia a víbora.
Memento mori. O vazio é a substância da vida.
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