quinta-feira, 26 de novembro de 2015

A morte, a flor e a víbora

A noite era sombria e soturna. O silêncio denotava fuga: todos haviam escapado para dentro de si. Em posição fetal, mendicantes se satisfaziam com restos burgueses e, de quando em quando, eram surrados por meninos que voltavam tarde para seus pais, pessoas de bem. Havia lá fora, algures, veneno que a ninguém aprazia tragar. A cada esquina vislumbrava-se a flor amarela, e por trás dela espreitava o diabo.
Abancou-se em sua poltrona usual posicionada em frente à lareira. Não havia nada o que pensar; nunca havia. Entretanto, raros eram os momentos vazios. Repudiava instantes vagos. À vista disso, preenchia-os com o que havia de mais substancial em sua vida: pensamentos tão incorpóreos quanto o ar e fantasias tão efêmeras quanto sonhos de Vishnu. Tudo o mais convergia àquela existência detestável: o vazio.
Por trás do crepitar das chamas fazia-se audível a combustão de sua alma: ardia violentamente seu espírito, ainda que seu semblante permanecesse impassível. Seus olhos vidrados, cravados em seu coração, não se moviam um milímetro sequer. Como quem remexe um cadáver pútrido à procura da vida, cavava o próprio passado em busca da luz.
Trepava a árvore de sua mente uma serpente negra. Sombria e mefítica, espreitava o pássaro que havia pousado na ponta de um dos braços. Deslizava lúbrica e pacientemente contra a gravidade. Não havia angústia ou inquietação em seus movimentos: a serpente era dona do tempo. Preparava-se para o bote. O vislumbre, a determinação, o golpe e o sangue. Silêncio.  
Ergueu-se de seu assento e dirigiu-se vacilante e morosamente à ventana. De lá era possível contemplar grande parte da rua em que residia. Testemunhava um grupo de ébrios burgueses: homens e mulheres regressando de uma festa de gala qualquer. Não lhe era possível distinguir uma palavra do que diziam, mas as vozes graves misturadas às agudas e médias logravam seus ouvidos e lhe evocavam a cena de moscas famintas ao redor de cadáveres putrefatos. Contemplava, ademais, cães e indigentes vasculhando as mesmas latas de lixo à procura de alguma substância. Todos inalavam aflita e sofregamente o pólen da flor fulva.
Do mesmo modo, havia já tragado o veneno dourado do medo. Assim, era aterrorizado pelo que se descortinava cada vez mais próximo: o vazio. Havia em seus olhos trêmulos o pavor da morte e de depois da morte. Existência detestável a sua, preenchida por nuvens flavas e abismos ecoantes. Mais uma vez a víbora sombria serpenteava pelos vãos de seu crânio.
Não suportava contemplar o mundo. Ludibriava-se ao admirar o canto de um pássaro ou as cores do céu. Tudo era miragem e quimera: não havia amor ou beldade. Havia dor e desespero. A mácula humana residia em seu coração: terra úbere da qual brotava a flor do medo. Não lhe era possível suster a visão das ruas ou do firmamento, porquanto o homem e a natureza esmigalhavam-no. Assim, construíra um muro ingente ao seu redor.
Há anos não o cruzava. Tijolo por tijolo, desde sua infância empenhava-se a finda-lo. Devia aferrolhar-se dentro de si para não padecer das monstruosidades do mundo: seus pais lhe haviam já evidenciado. Do lado de fora não havia mais do que abutres aflitos à procura da morte, cães sedentos e seus ladros hostis, porcos imundos nutrindo-se da escória humana; havia medo, e do medo nascia o ódio.  Havia a flor, e da flor nascia a víbora.

Memento mori. O vazio é a substância da vida. 

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